Texto por: André Victor e Kiever Jonny.
PSICOLOGIA - UEPB
Vivemos
numa sociedade complexa e mutável, onde o mundo pós-moderno rompe as
barreiras, acelerando o tempo e quebrando as fronteiras, impondo novos
modos de pensar e agir. Condiciona os indivíduos, principalmente,
através da mídia a tomar as novas tendências como forma “natural” a qual
segundo (Silva,2005) será taxado de “anormal” aquele que não se adequar ao sistema.
Os jovens são também “embasados” nesse mundo contemporâneo, mudando
suas formas de relacionar e enxergar o outro. Eles nada mais são do que a
expressão de “(...) tendências e contradições de um tempo e lugar ou da história, da sociedade e da cultura (...)” (Sterza, 2005).
Pela maior sensibilidade às questões e idiossincrasias do nosso tempo,
formam imagens de rebeldia, mudanças, revolução, idealismo entre outros
que dão alusão a confrontos e espírito de metamorfose.
Por isso tanto a ciência como o senso comum nomearam essa fase da vida
(adolescência) como período de profundas transformações, fazendo dessa
um conturbado de pensamentos levando-os a refletir seus valores,
identidade, e suas relações afetivas.
O que acarreta esse mundo pós-moderno nas novas formas de
relacionamento entre os jovens? Será que a mídia influencia de forma
significante os novos modos de agir?
São notórias as mudanças na organização familiar devido às mudanças nos
relacionamentos, vínculos afetivos e amorosos que outrora formavam o
núcleo tradicional da família. E notam-se mudanças equiparadas aos novos
tempos, mas remetendo a antigos sistemas, e como tendência natural,
essas novas formas de vínculos tende-se, devido à tecnologia, a ser mais
difundidas.
Segundo (Sterza,
2005) o mundo contemporâneo com sua dialética de tempo e espaço, influi
em relações mais passageiras, fluidas, transitórias, efêmeras. Na qual
Segundo (Stengel, 2003 apud Silva,2005):
A
massificação e generalização de conceitos apresentados pela mídia tomam
essa “naturalidade” como verdade absoluta e característica
imprescindível do adolescer, não levando em consideração as
peculiaridades de todo o processo subjetivo e também cultural que
envolve o relacionamento entre os jovens.[1]
O ficar e o namoro são os mais citados tipos de relacionamento amorosos entre os jovens (MARIANO, 2001 apud Sterza, 2005) que trazem feições do mundo globalizado e as tradições de iniciação sexual do passado.
O namoro era um ensaio para a vida de casado, com regras já delimitadas e aceitas comumente. Com a onda pós-Beatles[2] e o movimento Hippie[3] o namoro e as relações afetivas ganharam novas feições e novo corpo.
Os adolescentes que se apresentam numa idade instável, na busca de
liberdade, influíram o “ficar”, uma nova forma de relacionamento. O
ficar traz os traços das rápidas transformações do mundo, como uma
ramificação da paquera e “(...) dos relacionamentos que os adolescentes, no passado, estabeleciam com prostitutas ou “garotas que mantinham relações sexuais”” (Sterza, 2005).
No dicionário Aurélio (2000, p320 e 480) tem a definição de ficar como:
“trocar carinho por períodos curtos, mas sem compromisso de namoro” e a
definição de namorar: “procurar inspirar amor a; cortejar”.
Na concepção dos jovens, hoje o namoro e o ficar representa simultaneamente:
Tabela 1 – Percentual de respostas:
O que é namorar para você?
|
Tabela 2 – Percentual de respostas:
O que é ficar para você?
|
Amar 19,3%
Gostar 14,0%
Confiar 14,0%
Compartilhar sentimentos 12,3%
Relacionamento sério 10,5%
Companheirismo 8,8%
Compromisso mutuo 5,3%
Transar 5,3%
Identificação 3,5%
Respeito 3,5%
Amadurecimento 3,5%
|
Beijar sem compromisso 34,8%
Relacionamento momentâneo 21,8%
Conhecer alguém 15,2%
Relacionamento por atração 8,7%
Transar 4,3%
Gostar de alguém 4,3%
Antecipa o namoro 4,3%
Melhor que namorar 2,2%
Coisa vulgar 2,2%
Não é transar 2,2%
|
(Silva, 2005)
Torna-se curioso a narração dos jovens frente a essas questões,
principalmente acerca do sexo nas relações de ficar e namorar. A forma
precoce de iniciação sexual, mostra influencia direta da baixa
escolaridade e da estrutura familiar degradada do jovem.
Na pesquisa de Rieth (2002) os jovens de ambos os sexo, que são virgens, apontaram a relação sexual no ficar como inapropriado.
Álvaro,
15 anos, menciona os medos de não saber o que fazer na primeira vez.
Diz estar mais preparado para ter relações com uma parceira porque tem
“mais noção o que que é, sempre tive medo”. Tem a expectativa de transar
com uma namorada e gostaria que a jovem fosse virgem “pra gente
compartilhar a mesma coisa.”
A preocupação delas é tranzar a primeira vez com alguém especial, eles trazem os receios quanto ao seu desempenho.
Para grande parte dos rapazes, o sexo com a parceira representa
aprendizagem, e firmação da virilidade, depois da primeira relação
tende-se a manterem relação sexual nas relações de ficar. Para as
moças o sexo parte de uma afinidade amorosa, por isso selecionam o
namorado como um parceiro ideal, dando ênfase às pratica de ficar varias
vezes.
Apesar do ficar ser “aceito” em nossa sociedade, e segundo muitos
jovens uma forma de explorar os sentimentos e fazer escolhas mais
condizentes com a realidade, ele (o ficar) acarreta de certo modo
preconceitos, principalmente para o sexo feminino que ainda sofre os
tabus, só que em menor grau, de que as garotas que “ficam” com “todo
mundo”, não serve para um relacionamento duradouro, remetendo as
mulheres de antigamente que mantinham relações sexuais e não eram bem
vistas pela sociedade.
O ficar é amplamente citado nas conversas juvenis, embora, ha
predominância pela escolha do namoro, como mostra a pesquisa de
(WEINGARTNER 1995, apud: Sterza, 2005) “(...) aproximadamente 26% dos meninos e 9% das meninas declararam preferir o ficar, enquanto 41% dos meninos e 72% das meninas declararam preferir o namoro.”
Outra constatação é a da sexualidade que passou de ser um ideal
romântico para manutenções de necessidades puramente hedonistas. O amor
confluente é eterno enquanto dure a co-satisfação entre os parceiros.
(Bauman, 1998, apud Sterza, 2005)
As
dúvidas das relações sexuais estão presentes dentro da concepção do
“ficar” e do namoro, sendo de suma importância a abstração de todo
processo para conhecer as novas formas de relacionamentos presentes no
século XXI e sua influencias futuras.
Curiosa é ligação entre sexo com camisinha e fidelidade. Para as jovens
o não uso da camisinha nas tranzas é sinal de fidelidade do parceiro.
As dificuldades surgem quando tais ações são precedidas de imaturidade,
iniciando muitas vezes problemas de natureza mais complexa: DST’s e a
gravidez indesejada.
“Eu
acho que uma gravidez na nossa idade tira toda a liberdade da
pessoa;depois que tem um filho, se amadurece muito rápido, corta um
pedaço da vida da gente”. ( Laura, 15 anos apud Rieth, 2002)
Em
conseqüência da gravidez indesejada, muitas adolescentes optam por um
aborto, uma das praticas hoje mais debatidas em meio ao cenário da saúde
publica nacional. Os
resultados confiáveis das principais pesquisas sobre aborto no Brasil
comprovam a tese de que a ilegalidade traz conseqüências negativas para a
saúde das mulheres e:
Enfrentar
com seriedade esse fenômeno significa entendê-lo como uma questão de
cuidados em saúde e direitos humanos, e não como um ato de infração
moral de mulheres levianas. (pesquisadores da Universidade de Brasília e
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2008)
Mais
quais características serão pressupostos para a escolha sexual? Elas
variam de gênero e faixa etária? Nos seres humanos acredita-se que tais
características vindas do biótipo não são mais tão relevantes para a
escolha do parceiro, já que com a evolução sócio-cultural nós
apreendemos a “driblar” tais reflexos inatos.
Mas a pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo
(2006) mostra uma perspectiva que nos coloca no devido lugar, animais
biológicos, a mesma, inicia afirmando, que, se não fosse por certos
fatores gênicos nós não existiríamos. Traz um paralelo em nosso clado,
mostrando que o sexo passou de função de multiplicação da espécie para
fonte de prazer, a sexualidade passou de unicamente intuitiva para
psíquica.
Para compreender esse processo os pesquisadores entrevistaram homens e
mulheres de diferentes faixas etárias e constatou que para as mulheres
as características mais marcantes que influenciam a escolha do parceiro
estão ligadas a capacidade financeira, responsabilidade, bem-está
físico, competência profissional, o que pode ser relacionado à busca de
garantir o melhor para a prole. Nos homens está correlacionado, o
erotismo e a mulher fisicamente atraente o que pode está relacionado ao
potencial reprodutivo, no qual para o macho sua meta, pela herança
evolutiva, é fecundar o maior numero possível de parceiras.
O objetivo de estudar as relações juvenis em um âmbito generalista é
de entendermos que essas são decorrentes de atos e conseqüências,
influenciadas por estímulos oriundos do meio cultural, artístico e
religioso, adaptando as características biológicas da raça humana.
Em todas as pesquisas referidas é manifesto, através de análises
históricas e pesquisas de campo, que as relações afetivas apesar de
sofrerem alterações desse mundo contemporâneo ainda continuam
interligadas por fios ligados aos preceitos morais familiares antigos. A
quebra desse sistema pode ocasionar um caos, onde a intensa liberdade
vai gerar grande ansiedade levando o mundo a uma desordem.
O
jurisfilósofo Ronald Dworkin admite: Apesar de acreditarmos
freqüentemente que alguém cometeu um erro ao avaliar quais são seus
interesses, a experiência nos ensina que, na maioria dos casos, nós é
que erramos ao pensar assim. (apud Carolina 2003)
Não nos cabe fazer julgamento das novas formas de relacionar, apenas
entender sua gênese e as possíveis conseqüências num futuro. Facilitando
o planejamento para melhoria de vida da população. A problemática é
muito mais complexa do que apresentada nesse breve referencia, e não nos
cabe responder até as ultimas conseqüências dessa, apenas esclarecer
que o mundo está sofrendo modificações, que não necessariamente sejam
certas ou erradas, mas sim decorrentes das necessidades do novo tempo
que nos circunda assim como as novas formas de relacionamento juvenil no
século XXI.
Referencia Bibliográficas:
STERZA, José Justo. O “ficar” na adolescência e paradigmas de relacionamento amoroso da contemporaneidade. Revista do Departamento de Psicologia - UFF, v. 17 - nº 1, p. 61-77, Jan./Jun. 2005
RIETH, Flávia.A iniciação sexual na juventude de homens e mulheres.Universidade Federal de Pelotas – Brasil. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 8, n. 17, p. 77-91, junho de 2002
Silva, Jardel Oliveira de Jesu. Ficar ou namorar: um dilema juvenil. Faculdade Pio Décimo, Aracaju. PSIC - Revista de Psicologia da Vetor Editora, v. 6, nº 1, p. 67-73, Jan./Jun. 2005
Carolina, Ana Dode Lopez. Colisão de direitos fundamentais:direito à vida X direito à liberdade religiosa. Rio Grande do Sul, 2003.
Universidade
Federal do Espírito santo. Seleção sexual dos seres
humanos:características que homens e mulheres acima de 12 anos
selecionam em seus parceiros para um relacionamento a longo prazo.
Florianópolis,SC, 2006.
Foi
executado por pesquisadores da Universidade de Brasília e pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.ABORTO E SAÚDE PÚBLICA: 20 ANOS
DE PESQUISAS NO BRASIL. p 1 à 20. Brasília - DF, JANEIRO, 2008.
BUARQUE, Aurélio de Holanda ferreira. Mini Aurélio - O mini dicionário da língua portuguesa. p 320e 480. 2010.

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